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Critérios de Acionamento Precoce: quando discutir ECMO e preservar a janela terapêutica

O paciente está na UTI há algumas horas. A pressão arterial ainda aparece dentro de uma faixa aceitável no monitor. A saturação ainda não caiu de forma alarmante. Os números, isoladamente, não pareceriam assustadores para quem entra no quarto naquele instante.

Mas algo está mudando.

A dose de noradrenalina foi ajustada duas vezes desde a manhã. Um segundo vasoativo precisou ser associado. O lactato, colhido de seis em seis horas, não caiu — subiu discretamente. O débito urinário da última hora foi menor que o da anterior. A creatinina começou a se mover.

Ou, em outro cenário: a ventilação mecânica já está com parâmetros agressivos, o paciente foi pronado, recebeu bloqueio neuromuscular e a troca gasosa continua inadequada.

Nos dois casos, a pergunta que importa não é “este paciente está grave?”. Todo mundo já sabe que está.

A pergunta é: em que momento exato este paciente deixa de ser apenas um paciente grave e passa a ser um paciente que deveria estar sendo discutido com uma equipe de ECMO?

E a resposta surpreende muita gente: esse momento costuma chegar antes da indicação definitiva de canulação.

ECMO à beira-leito em unidade de terapia intensiva

Duas decisões diferentes, frequentemente confundidas

Há uma distinção que atravessa todo este artigo e que, sozinha, muda a forma como um serviço lida com pacientes críticos:

Acionar a equipe de ECMO é diferente de implantar ECMO.

Acionar uma equipe de ECMO significa iniciar uma avaliação especializada. Não equivale a indicar ECMO, não determina transferência e não compromete o paciente com uma canulação. A decisão terapêutica só acontece depois da análise do caso, da trajetória e das alternativas disponíveis.

Implantar ECMO, por sua vez, é uma decisão terapêutica invasiva, com riscos próprios, que exige critérios e estratégia.

Confundir as duas é um dos erros conceituais mais importantes na assistência ao paciente crítico, porque leva as equipes a adiarem a discussão pelo receio de estarem antecipando o procedimento.

Acionar cedo uma equipe especializada permite:

  • Acompanhar a trajetória do paciente em conjunto, e não em fotografias isoladas;
  • Discutir a reversibilidade da causa antes que ela deixe de ser reversível;
  • Revisar a fisiologia com outro olhar;
  • Identificar contraindicações que poderiam modificar a conduta;
  • Planejar transferência com antecedência, e não sob colapso;
  • Preparar logística, incluindo leito, equipe, material e autorização;
  • Evitar que uma decisão complexa precise ser tomada em condições extremas.

Acionamento precoce não significa colocar ECMO cedo em todos. Significa começar a pensar cedo.

O mito do “último recurso”: por que o timing define o desfecho

Por razões históricas compreensíveis, a ECMO se consolidou no imaginário médico como uma última tentativa — o recurso acionado quando tudo o mais falhou.

A terapia surgiu em contextos de resgate, com tecnologia mais rudimentar, complicações mais frequentes e resultados piores. Reservá-la para situações extremas era, à época, uma decisão razoável.

Esse conceito envelheceu mal.

Quando a ECMO é considerada apenas depois de muitas horas de hipoperfusão, doses muito elevadas de vasopressores, anúria instalada, acidose grave, disfunção hepática, sangramento ou eventual lesão neurológica, ela chega diante de um organismo diferente daquele que teria encontrado horas antes.

A distinção fisiológica essencial é:

A ECMO pode restaurar circulação. Ela não consegue tornar reversível uma lesão orgânica que já se tornou irreversível.

Restaurar fluxo em um paciente com falência multiorgânica consolidada frequentemente produz um resultado paradoxal: números que melhoram e um desfecho que não muda.

Mas “quanto mais cedo, melhor” também está errado

Se o raciocínio parasse aqui, seria uma simplificação — e uma simplificação que a literatura recente desmontou de forma bastante clara.

O ECLS-SHOCK, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, avaliou VA-ECMO precoce no infarto agudo do miocárdio complicado por choque cardiogênico. Foram randomizados 420 pacientes, dos quais 417 foram incluídos na análise principal, para suporte extracorpóreo precoce associado ao tratamento convencional ou tratamento convencional isolado.

Não houve redução de mortalidade em 30 dias — 47,8% contra 49,0% — e houve aumento significativo de sangramento moderado ou grave e de complicações vasculares periféricas no grupo ECMO.

O ECMO-CS, publicado no Circulation em 2023, testou a implantação imediata de VA-ECMO contra uma estratégia inicialmente conservadora, com possibilidade de escalonamento posterior.

Também não demonstrou superioridade da estratégia imediata. Cerca de 39% dos pacientes do braço conservador acabaram recebendo ECMO quando apresentaram deterioração. Na prática, o estudo comparou ECMO para todos contra ECMO para quem efetivamente veio a precisar.

Uma metanálise de dados individuais publicada no Lancet, também em 2023, reforçou o padrão: ausência de benefício de mortalidade nesse cenário, acompanhada de maior incidência de sangramento e complicações vasculares.

A síntese correta

Esses estudos são frequentemente mal interpretados em duas direções: tanto por quem deseja concluir que ECMO não funciona quanto por quem prefere ignorar os resultados negativos.

A leitura mais precisa é:

O problema não é escolher entre ECMO cedo ou tarde. É identificar o paciente certo antes que ele ultrapasse o ponto em que a terapia ainda pode modificar sua trajetória.

Em termos conceituais:

Acionamento precoce ≠ canulação precoce indiscriminada.

Os ensaios negativos avaliaram estratégias de implantação de suporte e não uma estratégia institucional de consulta precoce e acompanhamento compartilhado.

Por isso, seus resultados não devem ser interpretados como argumento contra a discussão antecipada do paciente.

Janela de oportunidade: sinais clínicos para acionamento imediato

Os critérios a seguir não são critérios de indicação de ECMO.

São sinais de alerta para discussão precoce: evidências de que a fisiologia está deixando de responder e de que pode ser útil incluir uma equipe especializada na tomada de decisão.

Nenhum deles, isoladamente, indica canulação. Em conjunto, porém, eles contam uma história.

Choque cardiogênico e falência circulatória

A trajetória dos vasoativos

O parâmetro mais informativo não é qual droga o paciente está utilizando. É para onde a dose está indo.

Sinais de alerta incluem:

  • Escalada progressiva da dose ao longo de horas;
  • Necessidade de associar um segundo ou terceiro agente;
  • Dificuldade crescente para manter perfusão apesar dos ajustes;
  • Pressão arterial aparentemente normal, porém sustentada por suporte farmacológico progressivamente maior.

Uma pressão arterial preservada por doses cada vez maiores de vasopressor não é sinônimo de estabilidade.

Vasopressores e inotrópicos cumprem funções diferentes. Vasopressores, como a noradrenalina, são utilizados para restaurar a pressão de perfusão e permanecem fundamentais no tratamento inicial do choque.

Inotrópicos podem aumentar o débito cardíaco, mas especialmente os agentes adrenérgicos também podem aumentar o consumo miocárdico de oxigênio e favorecer arritmias.

Por isso, o sinal de alerta não é simplesmente utilizar essas drogas. É depender de suporte farmacológico progressivamente maior sem melhora correspondente da perfusão.

O consenso de especialistas do American College of Cardiology sobre choque cardiogênico, publicado em 2025, recomenda a noradrenalina como vasopressor de primeira linha e endossa a monitorização hemodinâmica invasiva para orientar o escalonamento.

Lactato

O lactato é frequentemente reduzido, na conversa clínica, a “marcador de metabolismo anaeróbio”. Essa é uma simplificação imprecisa.

O lactato reflete um estado de estresse metabólico e gravidade, influenciado simultaneamente por perfusão tecidual, estímulo adrenérgico — inclusive pelas próprias catecolaminas administradas —, função hepática e capacidade de clearance.

Um lactato elevado nem sempre significa hipoperfusão pura. Da mesma forma, um lactato normal não garante perfusão adequada.

O que importa clinicamente é:

  • A tendência ao longo do tempo;
  • A persistência de valores elevados apesar do tratamento otimizado;
  • A ausência de queda nas primeiras horas de terapia;
  • A coerência com os demais sinais de perfusão.

Um lactato isolado informa. A direção do lactato conta uma história.

Não existe um valor de corte que indique ECMO. Existe um padrão de lactato que não responde — e esse padrão merece uma segunda opinião.

Débito urinário

A oligúria é um sinal precoce e acessível de possível hipoperfusão renal, mas precisa ser interpretada com cautela.

Pode resultar de hipovolemia, congestão venosa, lesão renal já estabelecida, obstrução ou medicamentos. Isoladamente, diz pouco.

Integrada à trajetória hemodinâmica — débito urinário caindo enquanto a dose de vasoativo sobe e o lactato não cede — torna-se um alerta consistente.

Perfusão periférica

Sinais do exame físico continuam apresentando valor prognóstico e estão disponíveis em praticamente qualquer serviço:

  • Extremidades frias e gradiente térmico;
  • Tempo de enchimento capilar prolongado;
  • Livedo reticular, especialmente em joelhos;
  • Pulsos periféricos finos ou de difícil palpação.

Esses sinais são particularmente úteis porque não dependem de tecnologia e podem ser reavaliados com frequência.

Estado mental

Confusão, sonolência progressiva ou agitação podem refletir perfusão cerebral inadequada.

No entanto, sedação, analgesia, distúrbios metabólicos, delirium, abstinência e lesões primárias do sistema nervoso central podem produzir manifestações semelhantes.

A alteração neurológica é um dado a ser integrado ao conjunto, e não uma conclusão isolada.

Função renal e hepática

Elevação de creatinina, redução do ritmo de filtração, aumento de transaminases e alterações da coagulação podem indicar que o choque deixou de ser apenas um problema hemodinâmico e passou a produzir repercussão sistêmica.

Mais uma vez, o que importa é a trajetória.

Um valor alterado representa informação. Uma sequência de valores piorando ao longo de poucas horas representa deterioração.

Avaliação hemodinâmica

Quando disponível e apropriada, a monitorização hemodinâmica acrescenta informações que o exame físico isolado não consegue fornecer.

Ela pode auxiliar na avaliação de:

  • Débito e índice cardíaco;
  • Pressões de enchimento;
  • Congestão;
  • Perfis hemodinâmicos;
  • Falência predominantemente esquerda, direita ou biventricular.

Essa caracterização não é um detalhe acadêmico. Ela modifica a estratégia terapêutica e pode interferir diretamente na escolha do dispositivo de suporte quando houver indicação.

Nenhum valor hemodinâmico isolado funciona como gatilho de ECMO.

Ecocardiograma

O ecocardiograma à beira-leito é provavelmente um dos exames com melhor relação entre disponibilidade e impacto na decisão.

Ele permite identificar:

  • Falência ventricular esquerda, direita ou biventricular;
  • Tamponamento cardíaco;
  • Complicações mecânicas do infarto;
  • Valvopatias agudas;
  • Distensão do ventrículo esquerdo;
  • Causas potencialmente reversíveis capazes de modificar completamente a estratégia.

Sempre que disponível e sem atrasar intervenções necessárias, uma avaliação ecocardiográfica atualizada acrescenta informações fundamentais à discussão sobre suporte circulatório.

SCAI SHOCK: identificar a deterioração antes do estágio extremo

A classificação SCAI SHOCK, proposta em 2019 e atualizada por consenso de especialistas em 2022, oferece um vocabulário comum para descrever a gravidade do choque cardiogênico.

  • A — Em risco (At risk): ainda sem choque, mas com condição capaz de evoluir para ele;
  • B — Início (Beginning): hipotensão ou taquicardia presentes, sem sinais de hipoperfusão;
  • C — Clássico (Classic): hipoperfusão instalada, exigindo intervenção;
  • D — Deteriorando (Deteriorating): ausência de resposta ao que já foi realizado, com necessidade de novo escalonamento;
  • E — Extremo (Extremis): colapso circulatório, frequentemente acompanhado de parada cardíaca.

A mortalidade aumenta progressivamente entre os estágios, e essa gradação foi validada em diferentes populações.

O uso mais valioso da escala, entretanto, não é simplesmente classificar.

É acompanhar movimento.

Choque não é uma fotografia. É uma trajetória.

Dois pacientes classificados como SCAI C podem seguir caminhos completamente diferentes. Um pode estar nesse estágio há dez horas, com lactato em queda, dose estável de vasoativo e recuperação da diurese. Outro pode ter chegado a C há apenas 90 minutos vindo de B, com dose de vasoativo duplicada e lactato em ascensão.

A classificação descreve os dois com a mesma letra. A trajetória os diferencia.

Progressões rápidas, como B → C → D ou C → D, devem aumentar significativamente o grau de alerta e justificar consideração precoce de discussão com equipe especializada.

O que significa chegar ao estágio SCAI D?

O estágio D representa deterioração apesar da terapia inicial e deve aumentar substancialmente o grau de alerta para escalonamento e discussão especializada.

Isso não significa que todo paciente em SCAI D deva receber ECMO.

Significa que a estratégia atual não está funcionando e que simplesmente continuar fazendo mais do mesmo pode ter um custo crescente.

Falência respiratória grave: quando discutir VV-ECMO

O raciocínio sobre acionamento precoce não pertence apenas ao choque cardiogênico.

Na insuficiência respiratória grave também existe uma janela terapêutica — e dois erros simétricos devem ser evitados.

O primeiro é expor o paciente a dias de ventilação mecânica com parâmetros potencialmente lesivos antes de considerar suporte extracorpóreo.

O segundo é canular pacientes que ainda responderiam ao tratamento convencional otimizado.

O que deve acontecer enquanto a VV-ECMO é discutida?

Discutir VV-ECMO não significa abandonar ou interromper o tratamento convencional.

Pelo contrário, devem continuar sendo implementadas, conforme indicação:

  • Ventilação protetora com volumes correntes e pressões limitados;
  • Titulação adequada de PEEP;
  • Posição prona;
  • Bloqueio neuromuscular;
  • Otimização hemodinâmica;
  • Otimização do transporte de oxigênio;
  • Tratamento específico da causa da insuficiência respiratória.

Mas a discussão com um centro de ECMO não precisa esperar que todas essas estratégias tenham fracassado.

Em pacientes com insuficiência respiratória extremamente grave e trajetória preocupante, o contato pode acontecer enquanto o tratamento convencional ainda está sendo otimizado.

Isso permite acompanhar a resposta em conjunto e preparar alternativas sem transformar uma eventual deterioração em emergência logística.

Referências de gravidade não são gatilhos automáticos

O ensaio EOLIA, publicado no New England Journal of Medicine em 2018, utilizou como critérios de inclusão, sob ventilação otimizada:

  • PaO₂/FiO₂ abaixo de 50 mmHg por mais de 3 horas;
  • PaO₂/FiO₂ abaixo de 80 mmHg por mais de 6 horas;
  • pH abaixo de 7,25 com PaCO₂ igual ou superior a 60 mmHg por mais de 6 horas, apesar de ajuste ventilatório.

Esses critérios representam referências de gravidade utilizadas em um ensaio clínico. Não são gatilhos automáticos e universais para canulação.

O próprio EOLIA ajuda a demonstrar a necessidade de uma leitura cuidadosa. O estudo não atingiu significância estatística em seu desfecho primário, com mortalidade em 60 dias de 35% no grupo ECMO contra 46% no grupo controle, mas houve 28% de crossover, com pacientes do grupo controle resgatados posteriormente com ECMO.

Análises bayesianas posteriores apontaram alta probabilidade de benefício.

As diretrizes da ELSO para VV-ECMO em adultos, publicadas em 2021, organizam esse raciocínio como um processo de avaliação individualizada, e não como um único ponto de corte.

O caso do tempo de ventilação mecânica

A duração da ventilação mecânica antes da ECMO permanece como fator prognóstico relevante.

A ELSO considera ventilação prolongada sob parâmetros elevados e potencialmente lesivos uma contraindicação relativa — o que não equivale a estabelecer um limite universal e fixo de dias.

Durante a pandemia de COVID-19, algumas coortes observaram resultados aceitáveis mesmo após sete ou dez dias de ventilação mecânica.

Esses dados são observacionais, provenientes de centros isolados, e não devem ser extrapolados indiscriminadamente para todas as etiologias de SDRA.

A lição não é que o tempo de ventilação seja irrelevante.

A lição é que um critério não é uma sentença, e a decisão precisa integrar o paciente inteiro.

O momento de discutir VV-ECMO pode chegar antes do momento em que a hipoxemia se torna incompatível com a vida.

Circuito de ECMO com oxigenador e linhas de circulação extracorpórea

Preservação orgânica: o que a ECMO realmente faz

É preciso cuidado conceitual nesse ponto.

A ECMO não é nefroprotetora, hepatoprotetora ou neuroprotetora.

Ela não protege órgãos por mecanismo próprio.

O que a ECMO pode fazer é restaurar ou manter fluxo e oferta de oxigênio quando a fisiologia convencional não consegue mais fazê-lo.

Com isso, pode interromper temporariamente uma sequência de deterioração:

Falência cardíaca → baixo débito → hipoperfusão → disfunção celular → lesão orgânica → maior instabilidade → choque mais profundo.

Interromper esse ciclo antes que a lesão se consolide é o objetivo.

Não porque a ECMO cure a doença de base, mas porque a perfusão preservada pode permitir que o tratamento da causa tenha tempo de agir.

O outro lado da balança

A mesma terapia produz riscos próprios, que precisam ser considerados na decisão:

  • Sangramento;
  • Trombose;
  • Hemólise;
  • Resposta inflamatória ao circuito;
  • Complicações vasculares;
  • Isquemia de membro;
  • Lesão renal;
  • Eventos neurológicos;
  • Infecção;
  • Aumento da pós-carga do ventrículo esquerdo na VA-ECMO periférica;
  • Distensão ventricular e edema pulmonar.

ECMO não é proteção orgânica automática. É uma estratégia potencial para restaurar perfusão antes que a deterioração se torne irreversível, em pacientes adequadamente selecionados.

Antes que a reversibilidade se perca

Não existe um único marcador capaz de definir com precisão o momento em que um paciente deixa de ser recuperável.

A avaliação da reversibilidade integra elementos que nenhum exame isolado consegue resumir:

  • Idade e reserva fisiológica;
  • Comorbidades e fragilidade prévia;
  • Estado funcional antes do evento;
  • Causa da falência e sua reversibilidade intrínseca;
  • Tempo decorrido de choque ou hipóxia;
  • Ocorrência e duração de parada cardíaca;
  • Estado e prognóstico neurológico;
  • Trajetória do lactato;
  • Função renal e hepática;
  • Sangramento ativo e distúrbios de coagulação;
  • Existência de uma terapia definitiva alcançável, como cirurgia, dispositivo de assistência ventricular, transplante ou tratamento da causa.

Valores extremos isolados não devem ser utilizados nem para negar nem para indicar a terapia.

Um lactato muito elevado em uma intoxicação potencialmente reversível não tem o mesmo significado que o mesmo valor em um paciente com falência multiorgânica instalada há vários dias.

A pergunta que organiza a decisão é:

Qual é a probabilidade de este paciente se recuperar ou alcançar uma terapia definitiva se conseguirmos restaurar a perfusão agora?

Ferramentas como os escores SAVE e ENCOURAGE no choque cardiogênico e RESP na falência respiratória podem auxiliar na estratificação.

Esses instrumentos são úteis para contextualização, comunicação, calibração de expectativas e comparação de resultados institucionais.

Nenhum deles substitui o julgamento clínico nem deve ser utilizado isoladamente para decidir sobre um paciente individual.

Chamar cedo permite dizer “não” com mais segurança

Existe um receio que frequentemente atrasa a discussão: a ideia de que acionar uma equipe de ECMO significa se comprometer com a canulação.

Não significa.

Uma discussão precoce pode concluir por:

  • Manter o tratamento convencional com reavaliação em uma janela definida;
  • Intensificar o suporte hemodinâmico;
  • Otimizar a ventilação;
  • Indicar posição prona;
  • Buscar e corrigir uma causa reversível ainda não identificada;
  • Considerar outro dispositivo de assistência circulatória;
  • Transferir o paciente para um centro de maior complexidade, com ou sem ECMO;
  • Observar a evolução por algumas horas com critérios claros de reavaliação;
  • Indicar ECMO;
  • Não indicar ECMO, com fundamentação técnica registrada.

Todas essas são conclusões legítimas.

Quando a decisão é não indicar ECMO e ela está bem fundamentada, isso protege o paciente de uma terapia sem benefício provável, protege a família de uma expectativa irreal e permite uma decisão compartilhada e tecnicamente consistente.

Um programa maduro de ECMO não é aquele que canula todos os pacientes discutidos. É aquele que identifica rapidamente quem precisa, quem ainda não precisa e quem provavelmente não se beneficiará.

O papel do Shock Team e da avaliação multidisciplinar

Decisões sobre suporte circulatório mecânico não deveriam depender de um único profissional, por mais experiente que seja.

Elas combinam cardiologia, terapia intensiva, cirurgia, hemodinâmica, insuficiência cardíaca avançada e, frequentemente, transplante, dentro de uma janela de tempo curta.

O conceito de shock team representa um grupo multiprofissional acionável, com protocolo definido de discussão rápida e critérios claros de escalonamento.

Experiências institucionais publicadas associaram esse modelo a melhores desfechos no choque cardiogênico, embora a literatura seja majoritariamente observacional.

O mecanismo, ainda assim, é plausível: o shock team substitui uma sequência de decisões isoladas por uma decisão coordenada, realizada mais cedo e com as diferentes alternativas terapêuticas simultaneamente consideradas.

Conforme o caso, podem participar:

  • Intensivista;
  • Cardiologista;
  • Cirurgião cardiovascular;
  • Especialista em ECMO;
  • Hemodinamicista;
  • Equipe de insuficiência cardíaca avançada e transplante;
  • Perfusionista;
  • Enfermagem especializada.

A discussão estruturada deve responder a perguntas centrais:

  • Qual é o fenótipo hemodinâmico?
  • Qual é a causa?
  • Ela é reversível?
  • Qual suporte faz sentido para essa fisiologia?
  • Qual é a estratégia de saída?
  • Existe necessidade de transferência?
  • Qual é o risco de continuar esperando?

A última pergunta é uma das mais importantes e, muitas vezes, uma das menos discutidas.

Não existe um número mágico para indicar ECMO

Vale reunir em um único lugar os parâmetros que, isoladamente, não indicam ECMO:

  • Um valor de lactato;
  • Uma dose específica de noradrenalina;
  • Uma pressão arterial;
  • Uma relação PaO₂/FiO₂;
  • Um valor de pH;
  • Uma fração de ejeção;
  • Um tempo de ventilação mecânica;
  • Um estágio SCAI.

Cada parâmetro só adquire significado quando lido dentro de um conjunto:

Etiologia + trajetória + reversibilidade + resposta ao tratamento + função dos órgãos + existência de estratégia futura.

Não existe, isoladamente, um valor de lactato, dose de noradrenalina, pressão arterial, PaO₂/FiO₂, pH, fração de ejeção, duração da ventilação mecânica ou estágio SCAI que determine ECMO.

Valores ajudam a reconhecer gravidade. A indicação nasce da integração da fisiologia.

Quem procura um único número para resolver a decisão corre o risco de esperar que esse número apareça — e ele frequentemente aparece tarde.

Como a avaliação conjunta com a ECMO Minas fortalece a decisão clínica

A decisão sobre ECMO é difícil por razões estruturais, e não por falta de competência de quem decide.

Ela ocorre sob pressão de tempo, em pacientes de altíssima gravidade, com incerteza prognóstica real, múltiplas alternativas plausíveis e risco elevado em qualquer direção — inclusive na decisão de não intervir.

Uma segunda avaliação especializada, realizada precocemente, pode contribuir para:

  • Revisar a indicação com outro olhar;
  • Interpretar a trajetória e não apenas o estado atual;
  • Discutir contraindicações relativas e absolutas;
  • Avaliar a reversibilidade da causa;
  • Planejar a estratégia de suporte e a estratégia de saída;
  • Identificar necessidade de transferência antes que ela se torne urgente;
  • Antecipar logística de leito, equipe, material e trâmites;
  • Discutir alternativas à ECMO;
  • Reduzir a chance de decisões tardias;
  • Evitar canulações sem indicação clara.

Isso não representa medicina defensiva nem transferência de responsabilidade.

É o mesmo princípio que sustenta qualquer discussão de caso complexo em medicina: decisões compartilhadas podem aumentar a qualidade clínica e reduzir a chance de escolhas isoladas sob pressão.

Você não precisa ter certeza de que o paciente precisa de ECMO para discutir o caso. Muitas vezes, o momento correto de ligar é justamente quando essa dúvida começa.

ECMO Minas: discutir antes da emergência logística

A ECMO Minas é uma equipe especializada sediada em Belo Horizonte, com atuação em Minas Gerais em ECMO e assistência circulatória mecânica, incluindo pacientes adultos, pediátricos e neonatais.

A equipe pode participar da avaliação de pacientes com:

  • Choque cardiogênico e falência circulatória refratária;
  • Insuficiência respiratória grave e hipoxemia refratária;
  • Possível necessidade de ECMO ou outra forma de assistência circulatória;
  • Necessidade de transferência de alta complexidade.

Uma discussão precoce permite:

  1. Compreender a situação clínica em profundidade;
  2. Revisar o tratamento já instituído;
  3. Avaliar critérios de gravidade e trajetória;
  4. Acompanhar a evolução em janelas definidas;
  5. Discutir ECMO ou alternativas;
  6. Planejar transferência, quando necessária;
  7. Organizar a logística antes que o paciente entre em colapso.

A ECMO Minas pode ser acionada para discussão de casos antes que exista uma decisão fechada sobre ECMO.

Em pacientes em rápida deterioração, discutir cedo não significa tratar demais. Significa preservar tempo para decidir melhor.

Conclusão

O melhor momento para discutir ECMO é antes que ela se transforme na única opção restante.

Isso não significa canular precocemente todos os pacientes graves. A literatura recente demonstra que essa estratégia indiscriminada não melhora necessariamente os desfechos e pode acrescentar complicações.

Significa algo diferente:

Reconhecer → discutir → acompanhar → selecionar → agir quando indicado.

Significa olhar para a trajetória, e não apenas para um valor isolado.

A pergunta relevante não é simplesmente “este paciente preenche critérios?”, mas:

“Para onde este paciente está indo e o que ainda é possível fazer a respeito?”

Timing, fisiologia, reversibilidade, estratégia e equipe precisam funcionar em conjunto. Nenhuma tecnologia compensa a ausência desses elementos.

Em ECMO, chegar cedo não significa canular cedo. Significa chegar à decisão enquanto ainda existem opções.

O acionamento precoce não antecipa necessariamente a terapia. Ele antecipa o raciocínio — e é o raciocínio antecipado que preserva escolhas.

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